



10/12/10
Por Ana Paula verly
Procurar uma resistência não-reativa nem ressentida à pretensão pós-moderna ao discurso único globalizado. À primeira vista complicada, a linha de estudo do professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Marcio Tavares D'Amaral, convidado do último Quarta às 4 de 2010, realizado no dia 8 de dezembro, não chegou a confundir a cabeça da jovem plateia da Biblioteca Nacional. Pesquisador do Laboratório de História de Sistemas de Pensamento do Programa Transdisciplinar de Estudos Avançados (Idea), localizado na Escola de Comunicação (ECO-UFRJ), o convidado fez uma análise da origem e do desenvolvimento da cultura ocidental, herdeira dos paradigmas grego e judaico, que envolvem filosofia, ciência e religião, tendo como pano de fundo a atual passagem de uma cultura da comunicação (fundamento-real-verdade) para uma cultura da informação (eficácia-virtual-simulação/simulacros).
Depois do encontro, com a participação de 62 alunos do Instituto de Educação Carmela Dutra, de Madureira, as alunas Camilla Ribeiro, de 15 anos, e Bruna Freire, de 17, – ambas do Ensino Médio – mostraram que a pouca idade não é obstáculo para apreender lições importantes. Sobre tudo que ouviram, durante uma hora de apresentação, elas concluíram:
“Achei muito interessante. Gostei mais do final, quando ele contou um exemplo bíblico (a luta de Jacó com Deus). Ele falou sobre uma pessoa que não desistiu e lutou pelo que queria”, comentou Camila.
“Ele também separou a internet da vida real. Muitas pessoas vivem a vida pela internet e acabam perdendo outras coisas, como o estudo e a amizade”, acrescentou Bruna.
A professora de Prática Pedagógica e Iniciação à Pesquisa Mirian Queiroz, que acompanhou o grupo, aprovou a experiência e a forma como os estudantes interpretaram questões tão densas. A exclusão de metade da população mundial (três bilhões de pessoas) do mundo digital e do consumo foi a informação que causou maior impacto. “Eles sabem da exclusão, mas não sabem diferi-la da vida deles. Nem todos já têm uma percepção filosófica construída. Mesmo assim foi ótimo, porque eles precisam vivenciar diferentes situações para amadurecer”, destacou a professora.
A coordenadora de projetos Susana Dominguez ressalta a importância de as turmas chegarem à Biblioteca Nacional com antecedência (às 14h30) para aproveitarem a visita guiada completa e esclarecer eventuais dúvidas antes da palestra. O Quarta às 4, incentiva Susana, “proporciona aos alunos e professores da Rede Estadual de Ensino atividades de caráter informativo, cultural e educacional”.
Ao longo de 2010, cerca de 2.600 alunos tiveram a oportunidade de visitar a maior biblioteca da América Latina. Em dois anos de parceria com a Seeduc, sete mil estudantes, de 67 escolas, participaram da experiência. O tema de 2010 foi “Livros Vivos, Histórias Originais”, com o objetivo de oferecer ao público relatos inéditos sobre as experiências pessoais ou profissionais dos convidados.
As presenças mais marcantes desta edição foram as de Gloria Perez, pela familiaridade dos jovens com a TV e as tramas da autora; as dos músicos Roberto Menescal e Moacyr Luz, por falarem do Rio de Janeiro em suas canções, além de cantarem para a plateia; a da escritora Thalita Rebouças, por usar a linguagem dos jovens; e a da jornalista Cora Rónai, por abordar o mundo das redes sociais, assunto do cotidiano dos estudantes.
“A parceria tem nos trazido muita alegria. O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, está muito satisfeito com o resultado”, concluiu o jornalista e também professor da UFRJ Vitor Iorio, idealizador e mediador do evento.
