



Na madrugada chuvosa do último dia 6 de abril, o servente de pedreiro Jair dos Santos, de 32 anos, acordou com a casa alagada. Como dorme no chão, despertou com parte do corpo molhado e chamou a mãe, que estava no mesmo cômodo, para ajudar a retirar a água empoçada na varanda. Mal começaram o trabalho, foram surpreendidos por uma avalanche de cadeiras, fogão, cama e sofá misturados a muita lama. Nesse momento, quatro sobrinhos e um irmão já estavam soterrados. A mãe, de 59 anos, ferida, também não resistiu e se juntou a eles cinco dias depois. Salvaram-se apenas Jair e um dos irmãos.

"Nos salvamos porque ficamos entre os móveis, enterrados até o pescoço, mas com a cabeça para fora. Foram quatro horas nessa situação, até que moradores conseguiram nos retirar", conta Jair, com a perna direita enfaixada e visivelmente traumatizado.
Jair e o irmão estão entre os 192 desabrigados acolhidos no Colégio Estadual Machado de Assis, no bairro do Fonseca, em Niterói, que desde o dia 7 de abril serve de abrigo para as vítimas das chuvas na cidade fluminense. Assim como Jair, muitos deles são do Morro do Bumba, de onde foram retirados 43 corpos e cerca de 60 pessoas ainda estavam desaparecidas até terça-feira, 13 de abril. Na tragédia, morreu a aluna Tayane dos Santos, de 13 anos. A maioria dos 1.200 alunos da escola mora em morros com risco de desabamento.
Outras centenas de moradores de Niterói estão abrigadas em colégios estaduais da cidade. Além de professores e funcionários, voluntários e universitários de Medicina, Enfermagem e Psicologia também participam do mutirão de apoio no C. E. Machado de Assis, que volta às aulas na próxima segunda-feira, 20 de abril. Até lá, a principal lição é a solidariedade. Alimentos, roupas e outros donativos não param de chegar.
"Estamos comovidos em ver como a comunidade está sendo solidária. Tem gente que não ganha nada e, mesmo assim, sai de suas casas para dar conforto aos necessitados", emociona-se a diretora do C. E. Machado de Assis, Ísis Barreto Alves.
Ajuda comunitária
A contribuição não é apenas de empresários e comerciantes da região. A população também ajuda com o que pode. A coordenadora de turmas Arlete Silva conta que é comum ver pessoas chegarem com panelas de comida pronta, cachorro-quente e lanches. Outro dia, uma senhora levou duas vasilhinhas de feijão. Parte dos donativos - que já lotam várias salas - estão sendo divididos com outras escolas. "A desgraça é muita, mas a solidariedade é de arrepiar", comenta Arlete.

Alguns desabrigados ajudam a organizar as doações. O entregador de gás Felipe Luiz Pimenta, de 22 anos, passa o tempo dobrando uma montanha de roupas, enquanto aguarda a prefeitura liberar o aluguel social que vai permitir que ele recomece a sua vida. Ele, a mãe, a irmã e o sobrinho escaparam por muito pouco da morte no Morro do Bumba. Um dia antes, ele ajudou a resgatar os corpos da família de Jair.
"A gente estava dormindo quando escutou um estalo e, logo em seguida, um cara passou na minha rua gritando para todo mundo sair de casa. Quando chegamos ao portão, vimos as casas caindo e ouvimos os gritos da pessoas pedindo socorro. No desespero, quase arrombamos o cadeado para sair correndo", conta Felipe, ainda "sem cabeça" para trabalhar.
Os personagens da tragédia contam as cenas como um filme: com imagens e sons bastante dramáticos. O tal "estalo" salvador também foi ouvido pelo genro da merendeira Fortunata Cesar, cuja filha perdeu tudo quando a casa foi soterrada por três imóveis que desceram com um barranco, na subida da Estrada da Titioca.
"Ele ouviu o telhado estalar e viu a geladeira entortar. Só deu tempo de arrombar a porta e tirar a minha filha e a minha neta. O casal de vizinhos morreu. Meu genro, que tinha uma oficina lá, teve três carros soterrados. Agora, estão saqueando as casas daquela região", contou Fortunata, com a foto do casal nas mãos.

Duas alunas também tiveram que abandonar as residências só com a roupa do corpo e a família. Embora não tenham visto as moradias ruírem, o trauma delas tem a mesma dimensão. Fernanda da Silva, de 19 anos, que cursa o segundo ano da Educação de Jovens e Adultos (EJA), tinha acabado de se mudar para uma casa própria e de pagar a última prestação do guardarroupa. Mas teve de largar tudo por causa do risco de desabamento.
"Parece que nascemos de novo", compara Fernanda, que divide uma sala de aula com 22 parentes, entre elas Pamela Monteiro, de 13 anos, do sexto ano, e Ana Cláudia Nicolau, de 26, que também teve que deixar para trás o imóvel que acabara de mobiliar. "É como esquecer uma vida inteira e reconstruir tudo do zero", lamenta Ana.
Cenário de guerra
Apesar de todo o esforço da diretora, o dia a dia no Machado de Assis tem cenas dignas do livro "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago. Desde quarta-feira à noite, quando chegaram os primeiros desabrigados, Ísis se dedica integralmente a colocar ordem na unidade. Mesmo assim, às vezes encontra dificuldades e precisa fazer reuniões com as famílias para estabelecer regras. Quando alguém as desobedece, é comum algum homem intervir para ajudá-la.

As dependências da escola foram divididas assim: as salas de aula viraram dormitórios, com janelas servindo de varal; o refeitório virou depósito de alimento; o pátio passou a servir de refeitório e área de recreação; e a sala de Educação Física é a enfermaria. Há ainda uma sala exclusiva para roupas e outra para sapatos. A guarita da entrada foi transformada em canil para dois cachorros e há ainda um terceiro - resgatado cheio de lama pelos bombeiros no Bumba - preso a uma árvore.
As pessoas que deixam o abrigo são cadastradas para continuarem recebendo donativos até segunda-feira. O mesmo acontece com os alunos que perderam tudo. No último domingo, à noite, Ísis viu um estudante do 9º ano vagando sozinho com uma pequena trouxa pelo bairro. Ela o levou para a escola, deu-lhe roupas e uma cesta básica. O rapaz perdeu-se do pai, vítima de alcoolismo, poucos dias antes de ver a casa em que moravam desabar.
"Agora é hora de esquecer o passado, olhar para frente e lutar!", encoraja a diretora.
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