- São quase 120 anos de República em nosso país. Neste tempo, a luta da democracia contra a concentração de poder tem sido constante. Desde os primeiros anos após a proclamação até os dias atuais, esta queda de braço ainda não foi totalmente definida.
A Professora Emília Viotti da Costa é uma referência na historiografia brasileira; ela lecionou na Yale University, entre os anos de 1973 e 1999, também foi professora da Tulane University e da University of Illinois. Para ela, o mal maior que ainda enfrentamos é “a persistência de uma mentalidade colonial que está sempre pronta a denegrir a realidade brasileira e a copiar modelos importados, em vez de criar novos modelos a partir da nossa experiência coletiva.”
Em entrevista exclusiva para o Conexão Professor, a Professora Emília Viotti da Costa fala sobre o início da República no Brasil, sobre o que este processo resultou de melhor e de pior para o nosso país e dá dicas de como é possível estimular a cidadania dos alunos em sala de aula.
Conexão Professor - Foi um tempo de ebulição política os anos de 1880, crise da Monarquia, Abolição da Escravatura, República. Passados quase 130 anos daquela década, a senhora acredita que o Brasil conquistou tudo que se esboçava ali, ou ainda carregamos problemas resultantes deste processo?
Emília Viotti da Costa - Os objetivos da maioria dos republicanos eram limitados. Basta examinar o programa do Partido Liberal e do Partido Republicano para reconhecer quais eram os problemas identificados pelos dirigentes. Queriam realizar reformas, não uma revolução. Por isso quando assumiram o poder alijaram os que pretendiam avançar nos caminhos da democracia. Nesse sentido a República foi apenas o primeiro passo, tímido, em direção a esse objetivo. Desde então se ampliou a luta com novos participantes e o sonho democrático se viu enriquecido com o reconhecimento que liberdade, igualdade e fraternidade são os pilares da democracia. E devem continuar a ser buscadas. Por outro lado, os obstáculos à concretização desse ideal são inúmeros e o legado do passado pesa sobre todos nós. Se nos libertamos da fraude eleitoral, pouco fizemos para evitar a corrupção de que se queixavam os monarquistas, ou da patronagem, que continua e imperar entre nós. As oligarquias se renovam e se recriam. Os títulos de nobreza foram abolidos, mas não os privilégios que a riqueza confere. O sistema educacional se expandiu, mas sua qualidade que tinha melhorado nos anos sessenta piorou e, sobretudo, estamos longe de estender a toda a população os benefícios que a sociedade oferece a uns poucos. O caminho da democracia é longo e árduo. É preciso não tirar os olhos do alvo a ser atingido continuar na luta.
- Conexão Professor - A República hoje é forte no Brasil? Se sim por que precisamos de mais de 100 anos para que ela se estabelecesse?
- Emília Viotti da Costa - O ideal republicano ainda é forte no Brasil, embora haja quem, desiludido com os problemas que enfrentamos, volte a falar em Monarquia ou prefira um regime parlamentar como aquele que vigorou no Império. Na maioria estes desconhecem os problemas que decorrem dos dois sistemas e ignoram a História do Brasil, contentando-se quando muito em ler autobiografias como a de Joaquim Nabuco ou de outras ilustres figuras do Império, desconhecendo a experiência da maioria dos brasileiros viveu naquela época.
Não há nada de estranho em que ainda tenhamos pela frente muitos anos de luta para realizar nossos ideais republicanos. A história não caminha em linha reta para um futuro melhor. Ela procede por movimentos erráticos para frente e para trás. Cada vez que há um recuo, uma perda de rumo, como o que tivemos de 1964 a 1985, é preciso reeducar a população e começar de novo onde o caminho foi perdido. Isso toma tempo. A experiência de toda uma geração foi interrompida e praticamente se perdeu.
Hoje recomeçamos com um atraso maior no processo democrático. O cenário nacional e internacional também mudou, é preciso soluções novas. O conhecimento da história é essencial para a construção do futuro, mas não é suficiente. É preciso avaliar as condições presentes e criar novas soluções. E, sobretudo, é preciso paciência e perseverança.
- Conexão Professor - Boa parte dos problemas que vivemos atualmente ainda remete àquele tempo? A escravidão ainda pode ser sentida hoje?
- Emília Viotti da Costa - Não há dúvida de que o legado da escravidão é um dos grandes problemas que enfrentam sociedades que no passado fizeram do escravo sua principal mão de obra. O Brasil sofre até hoje os problemas herdados da escravidão. A luta contra o preconceito é uma das tarefas importantes que ainda temos pela frente. Essa luta se dá em todas as frentes, não só contra percepções falsas e negativas que pesam sobre os descendentes de escravos, como na luta que se trava para criar condições de igualdade na escola, no trabalho, na moradia e em todo lugar onde a discriminação ainda pesa sobre eles.
Alem disso, a luta se estende a todos aqueles, brancos ou negros, nacionais ou estrangeiros, bolivianos, peruanos etc., que hoje estão reduzidos à escravidão ou à servidão pelo Brasil afora.
- Conexão Professor - Qual a grande virtude do processo republicano que o Brasil vive e viveu e qual o seu maior ponto fraco?
- Emília Viotti da Costa - Esta avaliação é muito subjetiva e tenho dificuldade em respondê-la. No
entanto, parece-me que uma virtude que tivemos no nosso processo histórico foi a de evitar guerras com outros países. As várias guerras nas quais o país se envolveu durante a Monarquia nos ensinaram o quanto é estúpido e danoso envolver-se em guerras intervencionistas em outros países. O absurdo e o fiasco da guerra contra o Paraguai pôs fim a essas experiências infelizes.
Durante o período republicano em que temos vivido desde 1889 até nossos dias foram poucas as intervenções militares em que o país se envolveu além da participação da II Grande Guerra. Durante o governo militar o Brasil participou da tropa de ocupação da República Dominicana e mais recentemente da tropa que supostamente pretende manter a paz no Haiti. Melhor seria se não tivéssemos tomado parte nesses empreendimentos. Em geral, no entanto, o país tem evitado atitudes agressivas em relação aos outros povos.
O ponto mais fraco é nossa incapacidade de participar de forma eficiente na construção da democracia e a facilidade com que as elites têm recorrido aos golpes de Estado e ao exército para derrubar governos legitimamente eleitos. Já se tem dito muitas vezes que o preço da democracia é a eterna vigilância. Nada mais verdadeiro. Por outro lado, nossa impaciência com a complexidade e a lentidão do processo histórico tem levado muitas vezes ou à inação e impotência ou a atos precipitados de rebelião. Finalmente, o mal maior me parece a persistência de uma mentalidade colonial que está sempre pronta a denegrir a realidade brasileira e a copiar modelos importados, em vez de criar novos modelos a partir da nossa experiência coletiva.
- Conexão Professor - Como a senhora acha que um professor pode usar uma aula de História do Brasil para estimular o interesse dos alunos pelo exercício da cidadania? Isso é possível?
- Emília Viotti da Costa - Possível sim, mas não é fácil. Cidadania não se ensina com aulas teóricas. Cidadania se aprende na vida quotidiana. A escola é apenas um dos locais onde esse aprendizado é possível. Como querer que uma criança que vê o pai desempregado ou a mãe agredida, uma criança a quem falta comida na mesa, uma criança que assiste a atos de violência e arbitrariedade por parte da polícia ou dos traficantes de droga, uma criança de classe média que passa os dias jogando jogos eletrônicos sobre guerra e violência, como querer que essa criança possa aprender lições de cidadania? Só quem ensinou numa escola de periferia sabe o quanto é difícil dar lições de cidadania.
Antes da mais nada é preciso definir o que se entende por cidadania. Após a Segunda Guerra um cidadão ficou famoso por se considerar cidadão do mundo. Muita gente seguiu o seu exemplo e reivindicou para si o título de cidadão do mundo. Passaram-se os anos e não se falou mais em cidadão do mundo. Hoje a definição de cidadania é mais modesta, mas a preocupação com a cidadania reapareceu.
O professor de História pode organizar um debate que se limita a sua classe ou envolve toda uma escola e a comunidade na qual se insere sobre o que é cidadania. Do debate podem sair pequenos trabalhos realizados pelos alunos em torno do tema ou atividades dirigidas para a comunidade. Problemas a serem estudados são, por exemplo, assistência média pública, existência de parques e jardins, funcionamento da prefeitura local, Corpo de Bombeiros atividades e organização, polícia, desempenho de vereadores, etc. Estas atividades podem absorver todo o semestre ou o ano letivo e seu resultado deve ser apresentado de forma escrita. Os relatórios e as atividades podem ser individuais ou coletivas, isto é, em equipes de quatro ou cinco pessoas. As atividades voltadas para a comunidade pretendem verificar quais as suas necessidades. A decisão de que aspectos analisar pode ser feita a partir de sugestões dos próprios alunos. Nesse processo aprendem a conhecer e a refletir sobre os problemas da comunidade em que vivem.
Outra atividade que pode ser desenvolvida com os alunos de História seria o exame na Constituição nas seções que definem o cidadão e seus direitos. O mesmo modelo pode ser adotado em relação ao tema em questão, com a organização de debates e elaboração de trabalhos.
Quando lecionei no Colégio de Aplicação em São Paulo tentei interessar uma classe que, por engano da administração, reunira uma primeira série ginasial composta de reprovados. Um grupo de rebeldes indisciplináveis, de reputação de indomáveis. Tentei interessá-los no estudo dos vereadores e da Câmara, tema que não despertou nenhum interesse entre eles. O único tema que os atraía era o estudo dos indígenas brasileiros. Fizeram trabalhos sobre o assunto e participaram de maneira extraordinariamente disciplinada na aula. O único problema é que só queriam estudar temas relativos a índios, nada mais os interessava, por mais que eu me esforçasse para tornar outros assuntos atraentes. Essa experiência demonstra que é melhor discutir previamente com os alunos qual o tema que preferem estudar, respeitando evidentemente o programa.
O professor de História pode também fazer um levantamento de histórias que estimulam o espírito de cidadania e consegui-las para a biblioteca da escola. O professor também pode estimular os alunos a organizar um jornal da comunidade. Qualquer que seja a atividade escolhida é preciso adequá-la à idade do aluno e respeitar seu interesse. Às vezes um filme, uma exposição tornam-se pretexto para discussão e elaboração de trabalhos. Há inúmeras possibilidades, tudo é questão de engenho e imaginação.
É preciso lembrar, no entanto, que um bom professor de História pode colecionar uma série de documentos interessantes e utilizá-los na aula desenvolvendo o espírito crítico dos alunos. Nada mais importante para a cidadania do que um cidadão com espírito crítico que é capaz de avaliar corretamente o que está acontecendo a sua volta e que é capaz de colaborar no sentido de resolver os problemas que aparecem.
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Crédito da foto: Cláudio Versiani
Local da foto: pátio interno da Sterlling Library, na Yale University
- Confira também o texto de Emília Viotti da Costa sobre a Proclamação da República.
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- Livros de Emília Viotti da Costa:
- - Da Monarquia à República - Momentos Decisivos
Costa, Emília Viotti da / UNESP
- - Da Senzala à Colônia
Costa, Emília Viotti da / UNESP
- - A Abolição
Costa, Emília Viotti da / UNESP
- - Coroas de Glória; Lágrimas de Sangue
Costa, Emília Viotti da / CIA. DAS LETRAS
- - O Supremo Tribunal Federal e a Construção da Cidadania
Costa, Emília Viotti da / UNESP
- - The Brazilian Empire
Da Costa, Emília Viotti; Costa, Emília Viotti da / UNIV OF NORTH CAROLINA PR
- Links interessantes:
Museu da República:
http://www.republicaonline.org.br
Especial Proclamação da República – Folha de São Paulo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2001/republica/index.shtml
Especial Proclamação da República – Veja:
http://veja.abril.com.br/historia/republica/indice.shtml
Fantástico - Eduardo Bueno fala sobre a República:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL697700-15607-191,00.asp
Nos jornais da época:
http://www1.uol.com.br/rionosjornais/rj03.htm
Livros de domínio público:
O Velho Senado – Machado de Assis
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19228
A República é Incontestável - Joaquim Nabuco
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19228