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Tensão nas Ilhas Malvinas, 30 anos depois da guerra
04/04/12
Por Ana Paula Verly
Na última segunda-feira, 2 de abril, completaram-se 30 anos do início da guerra entre Argentina e Inglaterra pela posse das Ilhas Malvinas, como são chamadas pelos sul-americanos, ou Falklands, pelos britânicos. Três décadas se passaram e os ânimos continuam exaltados na região, com localização estratégica e recursos naturais que tornam o arquipélago interessante para os dois países.
O acirramento recente da disputa decorre de o fato de companhias britânicas terem começado, em 2010, a exploração de petróleo nas águas da região. Estima-se que haja 8,3 bilhões de barris do combustível na área. No livro ‘La questión Malvinas en el marco del bicentenario’, o cientista político argentino Agustín M. Romero, professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), menciona que Margaret Thatcher já sabia do potencial petrolífero das Malvinas na época da guerra.
“Até 1982, 13 informes científicos internacionais assinalavam a importância petrolífera da bacia da qual as Malvinas fazem parte. A reação de Thatcher não se deveu, então, apenas a um distúrbio hormonal momentâneo causado pela ousadia aborígene em um momento de debilidade política”, escreveu Romero.
A 500 km da costa argentina, o arquipélago é habitado por 1.200 militares britânicos, 3 mil civis e cerca de meio milhão de ovelhas. Outro fator importante é a proximidade com a Antártida. As ilhas servem de trampolim para o Território Antártico Britânico, uma gigantesca superfície no continente gelado reivindicada pelo Reino Unido.
"Não digo que, num futuro próximo, serão extraídos petróleo, gás, urânio, zinco ou outros recursos minerais da Antártida. Mas o Tratado da Antártida, que proíbe isso, não valerá para sempre", diz o especialista em geopolítica Klaus Dodds, do Royal Holloway-College da Universidade de Londres, destacando que o documento deve ser revisado em 2048.
Os dois países trocam acusações de imperialismo e defendem suas posições. Londres enviou o destróier HMS Dauntless e possivelmente também um submarino atômico ao Atlântico Sul. A presidente argentina, Cristina Kirchner, pretende protestar nas Nações Unidas com o argumento de que a presença das embarcações traz um "grande risco à segurança internacional". Apesar de o Ministério britânico da Defesa afirmar que se tratava de uma missão de rotina, os argentinos encararam o ato como uma provocação.
"A presidente argentina está numa cruzada pessoal. A questão das ilhas está no topo da sua agenda", afirma a representante das Ilhas Malvinas em Londres, Sukey Cameron.
Kirchner vem aumentando a pressão sobre as Malvinas há dois anos. Embarcações precisam de uma autorização especial para navegar em direção às ilhas. No fim do ano passado, os países do Mercosul decidiram proibir oficialmente o atracamento de embarcações com bandeiras das Malvinas em seus portos, conforme pediu a Argentina.
A decisão tem um caráter mais simbólico, pois os portos estão liberados para navios e barcos com a bandeira britânica. Mesmo assim, os kelpers, como os habitantes das Malvinas se autodenominam, acreditam em outras futuras sanções de Buenos Aires. Uma possível retaliação seria a adoção de embargos a empresas com atuação nas ilhas. Kirchner pode também estar negociando com o Chile para impedir a conexão aérea do arquipélago com a América do Sul. Na década de 90, o governo do Chile já havia dado sinais a favor da decisão.
Para que a situação não chegue a esse ponto, o governo britânico apela ao patriotismo argentino. Com o bloqueio, veteranos da guerra das Malvinas e parentes das vítimas ficariam proibidos de visitar as ilhas. Ainda reagindo à pressão, o Reino Unido enviou ao arquipélago o futuro herdeiro do trono, o príncipe William, neto da rainha Elizabeth II e piloto de helicóptero da Força Aérea Real. O segundo herdeiro na linha de sucessão passou seis semanas em um treinamento militar na base aérea Mount Pleasant, o que gerou protestos na Argentina.
Do lado argentino, o orgulho nacional é o que move o país a disputar as Malvinas. O domínio britânico é visto como humilhação e tema importante da política externa argentina, já que se trata de uma questão de soberania nacional. As Malvinas foram dominadas pelos franceses e pelos espanhóis antes de ser ocupada pelos britânicos, em 1833. O que se estranha é o fato de um país tão distante como o Reino Unido reivindicar as ilhas.
A invasão argentina de 1982, com 900 vítimas, foi uma tentativa fracassada da junta militar de se manter no poder. Até agora, ninguém se manifestou sobre a possibilidade de uma nova guerra e do fim do conflito em um curto prazo. Apesar de uma resolução da ONU de 1965 pedir a negociação, o Reino Unido se mantém irredutível.
O governo brasileiro endossou, no último dia 18 de janeiro, a posição que mantém desde 1833. Durante a visita do chanceler britânico, William Hague, ao Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, reforçou o apoio à reivindicação da Argentina pela soberania das Malvinas. O ministro ainda reafirmou que embarcações com bandeiras das Falklands serão barradas em portos brasileiros.
A decisão está em conformidade com os países do Mercado Comum do Sul (Mercosul), da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). Há duas semanas, em encontro com Patriota, o chanceler argentino, Héctor Timerman, agradeceu ao Brasil pelo apoio “constante e sincero” e acusou os britânicos de militarizarem o Atlântico Sul. O Reino Unido devolveu a acusação.